Por Douglas Silvano — Professor de Educação Física — CREF nº 040024-G/SC
A educação integral representa uma oportunidade de ampliar o significado da aprendizagem e reconhecer que a formação dos estudantes envolve diferentes dimensões do desenvolvimento humano.
Mais do que aumentar o tempo de permanência nas escolas, essa proposta busca integrar conhecimentos acadêmicos, atividades culturais, práticas esportivas e experiências de convivência.
Como professor de Educação Física, acredito que uma educação de qualidade precisa oferecer condições para que crianças e adolescentes desenvolvam suas capacidades intelectuais, físicas e sociais.
Entretanto, transformar esse conceito em realidade exige planejamento, profissionais valorizados, infraestrutura adequada e políticas públicas comprometidas com a formação das novas gerações.
Educação integral e escola em tempo integral: qual é a diferença?
Embora sejam frequentemente utilizadas como sinônimos, as expressões educação integral e educação em tempo integral possuem significados diferentes. Compreender essa distinção é fundamental para avaliar as políticas educacionais e as propostas de ampliação da jornada escolar.
A educação integral está relacionada à formação dos estudantes em suas diferentes dimensões, considerando aspectos intelectuais, físicos, culturais, emocionais e sociais.
Já a educação em tempo integral se refere à organização de uma jornada escolar ampliada, na qual o estudante permanece mais tempo na escola ou participa de atividades educacionais complementares.
A Lei nº 14.640, de 31 de julho de 2023, que instituiu o Programa Escola em Tempo Integral, considera matrículas em tempo integral aquelas em que o estudante permanece em atividades escolares por pelo menos sete horas diárias ou 35 horas semanais, durante o período letivo.
Na minha visão, ampliar a jornada escolar pode representar uma oportunidade importante, mas não garante automaticamente uma formação integral.
Se o aumento do tempo não estiver acompanhado de planejamento pedagógico, atividades diversificadas e condições adequadas de funcionamento, os resultados podem ficar abaixo das expectativas.
Por isso, considero que a principal discussão não deve ser apenas quantas horas os estudantes permanecem nas instituições, mas quais experiências educacionais estão disponíveis durante esse período.
A expansão da educação em tempo integral no Brasil
A ampliação das matrículas em tempo integral ganhou espaço nas políticas educacionais brasileiras, especialmente com a implementação de programas voltados ao financiamento e à organização dessa modalidade de atendimento.
Segundo o Censo Escolar de 2025, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) em fevereiro de 2026, o percentual de matrículas presenciais em tempo integral na rede pública passou de 15,1%, em 2021, para 25,8%, em 2025.
Com esse resultado, o país alcançou o percentual mínimo de atendimento previsto na Meta 6 do Plano Nacional de Educação de 2014 a 2024, que estabelecia o objetivo de atender pelo menos 25% dos alunos da educação básica pública em tempo integral. O alcance desse patamar, registrado após o término do período original do plano, representa um avanço quantitativo importante.
No ensino médio público, o percentual de matrículas em tempo integral também apresentou crescimento, passando de 16,7%, em 2022, para 26,8%, em 2025.
Entendo que esses números demonstram um movimento de expansão que merece ser acompanhado. Entretanto, a quantidade de matrículas precisa ser analisada juntamente com a qualidade das experiências oferecidas, a infraestrutura disponível e os resultados educacionais.
Mais horas na escola precisam representar mais oportunidades
Acredito que uma jornada ampliada deve proporcionar experiências que não se limitem à repetição das atividades desenvolvidas no turno regular.
Projetos de leitura, pesquisas científicas, oficinas culturais, práticas esportivas e atividades interdisciplinares podem ampliar as oportunidades de aprendizagem quando possuem objetivos pedagógicos claros.
O desafio está em organizar essas experiências de maneira integrada, respeitando as necessidades dos estudantes e garantindo que a ampliação do tempo seja acompanhada de condições efetivas para aprender.
Aprendizagem e currículo precisam caminhar juntos na educação integral
Um dos riscos na implementação da educação integral é tratar as atividades complementares como experiências desconectadas do currículo escolar.
Na minha avaliação, a formação integral precisa estabelecer relações entre os diferentes conhecimentos, permitindo que os estudantes compreendam suas aplicações na sociedade.
A aprendizagem de matemática, língua portuguesa, ciências, história e outras disciplinas continua sendo essencial. Entretanto, esses conteúdos podem dialogar com projetos culturais, atividades esportivas e situações práticas que ampliem as possibilidades de compreensão.
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) reconhece a importância da formação humana integral e estabelece competências relacionadas ao conhecimento, ao pensamento crítico, à comunicação, à cultura, à responsabilidade e à cidadania.
Considero que essa perspectiva contribui para superar uma visão fragmentada da aprendizagem, na qual cada disciplina funciona de maneira completamente isolada das demais.
Projetos interdisciplinares podem aproximar conhecimentos
Uma atividade relacionada ao meio ambiente, por exemplo, pode envolver conhecimentos de ciências, geografia, matemática e produção textual. Da mesma forma, um projeto sobre manifestações culturais pode integrar história, arte, literatura e diferentes formas de expressão.
Na Educação Física, também existem possibilidades de desenvolver atividades que relacionem conhecimentos sobre o corpo humano, saúde, movimento e práticas culturais.
Entretanto, acredito que a interdisciplinaridade precisa ser planejada. Não basta reunir diferentes disciplinas em um mesmo projeto sem estabelecer objetivos claros de aprendizagem.
A proposta deve permitir que cada área preserve seus conhecimentos específicos, contribuindo para uma compreensão mais ampla dos assuntos estudados.
Cultura e arte ampliam as possibilidades de formação dos estudantes
A cultura representa uma dimensão importante da educação integral porque permite que crianças e adolescentes conheçam diferentes formas de expressão, compreendam manifestações sociais e desenvolvam relações com a história e a identidade de suas comunidades.
Atividades relacionadas à música, dança, teatro, literatura, artes visuais e patrimônio cultural podem proporcionar experiências que não estão necessariamente disponíveis no cotidiano de todos os estudantes.
Na minha visão, oferecer acesso a essas atividades também significa ampliar oportunidades. Nem todas as famílias possuem condições de custear cursos particulares, frequentar espaços culturais ou participar regularmente de eventos artísticos.
Por esse motivo, considero que a escola pública pode desempenhar uma função importante ao apresentar diferentes linguagens culturais e estimular a participação dos estudantes.
A valorização da cultura local também faz parte da aprendizagem
Projetos relacionados à história dos municípios, às manifestações populares e às tradições regionais podem aproximar os conteúdos escolares da realidade vivenciada pelos estudantes.
Em cidades como Sombrio, no Sul de Santa Catarina, considero relevante que propostas educacionais possam dialogar com a identidade cultural da região, respeitando a diversidade de experiências presentes nas comunidades.
Isso não significa limitar o conhecimento à cultura local. Pelo contrário, acredito que conhecer a própria realidade pode contribuir para estabelecer relações com outras manifestações culturais brasileiras e internacionais.
A educação integral deve ampliar horizontes, permitindo que os estudantes reconheçam diferentes expressões artísticas e compreendam a importância da diversidade cultural.
O esporte como ferramenta educacional e de desenvolvimento social
Como professor de Educação Física, considero que o esporte possui possibilidades relevantes dentro de uma proposta de educação integral.
As práticas esportivas podem contribuir para o desenvolvimento de habilidades motoras, conhecimentos sobre o movimento e experiências relacionadas à convivência coletiva.
Modalidades esportivas também permitem trabalhar situações que envolvem comunicação, cooperação, respeito às regras e responsabilidade. Entretanto, esses resultados dependem da orientação profissional e da maneira como as atividades são organizadas.
Acredito que o esporte educacional não deve ser confundido exclusivamente com a preparação de atletas ou a busca por resultados competitivos.
Embora as competições possam fazer parte das experiências formativas, o acesso à prática esportiva precisa considerar diferentes capacidades, interesses e condições de participação.
A experiência com o voleibol e a formação de crianças e adolescentes
Vivencio essa relação entre esporte e educação por meio da Associação de Voleibol Sul Catarinense (AVOSUL), entidade da qual sou fundador e presidente.
A experiência com as atividades esportivas reforça minha compreensão de que o voleibol pode proporcionar oportunidades de aprendizagem que ultrapassam os fundamentos técnicos da modalidade.
Durante treinamentos e atividades coletivas, existem possibilidades de trabalhar disciplina, comprometimento, cooperação e respeito às diferenças.
Essas experiências podem contribuir para o desenvolvimento pessoal dos participantes quando são acompanhadas de objetivos educacionais claros.
Na minha visão, iniciativas esportivas também podem ampliar o acesso de crianças e adolescentes a atividades organizadas, especialmente quando existem projetos capazes de atender diferentes comunidades.
Entretanto, considero importante reconhecer que o esporte não resolve sozinho problemas relacionados à desigualdade social ou à aprendizagem escolar. Seu potencial educativo precisa estar integrado a outras oportunidades de desenvolvimento.
A escola e a comunidade podem compartilhar espaços de aprendizagem
Uma proposta de educação integral não precisa compreender a instituição escolar como o único ambiente possível para a realização de experiências educativas.
Bibliotecas públicas, centros culturais, espaços esportivos, parques e equipamentos comunitários também podem contribuir para ampliar as atividades disponíveis.
Essa perspectiva aparece nas orientações do Programa Escola em Tempo Integral, do Ministério da Educação, que contempla a articulação das redes de ensino e o desenvolvimento integral dos estudantes.
Acredito que a utilização planejada dos espaços comunitários pode contribuir para aproximar a escola da realidade social e cultural das famílias.
Entretanto, essas iniciativas exigem organização administrativa, acompanhamento profissional e critérios claros de segurança, acessibilidade e responsabilidade institucional.
Parcerias precisam respeitar os objetivos educacionais
Associações esportivas, instituições culturais, universidades e organizações comunitárias podem contribuir com conhecimentos e experiências complementares.
Na minha avaliação, essas parcerias devem ser estabelecidas de maneira transparente, com definição das responsabilidades de cada instituição e acompanhamento dos resultados.
Também considero indispensável que a participação dos estudantes aconteça em condições adequadas, respeitando sua segurança, suas necessidades e os objetivos pedagógicos estabelecidos pela rede de ensino.
A ampliação dos espaços educativos pode representar uma oportunidade importante, desde que não seja utilizada como justificativa para reduzir a responsabilidade do poder público pela estrutura e pela qualidade da educação escolar.
Educação integral e desigualdade social: quem consegue acessar essas oportunidades?
A ampliação da jornada escolar também precisa ser discutida a partir das desigualdades sociais existentes no Brasil.
Crianças e adolescentes possuem diferentes possibilidades de acesso a atividades culturais, esportivas e educacionais fora das instituições de ensino.
Enquanto algumas famílias conseguem oferecer cursos, modalidades esportivas e experiências complementares, outras dependem principalmente dos serviços públicos para garantir essas oportunidades.
Acredito que a educação integral pode contribuir para reduzir determinadas diferenças, especialmente quando amplia o acesso a atividades e recursos que não estão disponíveis para todos.
Entretanto, a implementação dessas propostas precisa considerar questões relacionadas à alimentação, ao transporte, à acessibilidade e às condições de funcionamento das escolas.
A permanência ampliada exige estrutura e proteção
Uma criança que permanece durante grande parte do dia na instituição de ensino precisa encontrar condições adequadas para alimentação, higiene, descanso, convivência e realização das atividades pedagógicas.
Também considero importante respeitar as necessidades de estudantes com deficiência e daqueles que exigem acompanhamento específico.
Na minha visão, a expansão da jornada escolar não deve acontecer apenas pela necessidade de alcançar metas quantitativas. É fundamental que o planejamento considere a qualidade do atendimento e os recursos necessários para garantir uma experiência educacional adequada.
A educação integral precisa ampliar direitos e oportunidades, sem transformar dificuldades estruturais em novas barreiras para os estudantes e suas famílias.
Professores valorizados são essenciais para a educação integral
A ampliação das atividades escolares exige planejamento pedagógico, formação profissional e organização do trabalho docente. Professores desempenham funções essenciais na construção das experiências educativas, na orientação dos estudantes e na integração entre diferentes áreas do conhecimento.
Considero que implementar uma proposta de educação integral sem oferecer condições adequadas aos profissionais pode comprometer a qualidade das atividades desenvolvidas.
É necessário observar aspectos relacionados à jornada de trabalho, ao tempo destinado ao planejamento, à formação continuada e à disponibilidade de materiais pedagógicos.
Formação continuada e trabalho coletivo
O Ministério da Educação mantém iniciativas de formação voltadas à implementação de políticas de educação integral em tempo integral, incluindo ações destinadas a gestores e profissionais das redes de ensino.
Em junho de 2026, o MEC divulgou um ciclo formativo direcionado à revisão e à elaboração de políticas locais de educação integral, considerando as Diretrizes Operacionais Nacionais estabelecidas pela Resolução CNE/CEB nº 7/2025.
Essas iniciativas reforçam a importância de preparar as redes de ensino para desenvolver propostas educacionais consistentes.
Na minha avaliação, o trabalho coletivo entre professores, coordenadores pedagógicos e gestores também merece atenção. Uma proposta que integra diferentes áreas do conhecimento exige diálogo e organização, evitando que as atividades sejam desenvolvidas de maneira fragmentada.
A valorização profissional precisa acompanhar a ampliação das responsabilidades educacionais, garantindo condições para que os professores participem efetivamente da construção dos projetos pedagógicos.
Gestão pública e planejamento determinam a qualidade dos programas
A implementação da educação integral representa um desafio importante para a administração pública. Ampliar a jornada escolar envolve despesas relacionadas à alimentação, à infraestrutura, ao transporte, à contratação de profissionais e à manutenção dos espaços educacionais.
Por isso, acredito que o planejamento precisa anteceder a expansão das matrículas. A criação de novas vagas deve considerar a capacidade de atendimento das instituições e a sustentabilidade das ações ao longo dos anos.
A Lei nº 14.640/2023 prevê mecanismos de assistência técnica e financeira da União destinados ao fomento de matrículas em tempo integral nas redes de educação básica.
Entretanto, considero importante reconhecer que os recursos financeiros precisam ser acompanhados de gestão adequada, transparência e avaliação dos resultados.
Como avaliar a qualidade da educação integral?
A quantidade de matrículas e o número de horas oferecidas representam indicadores relevantes, mas não são suficientes para demonstrar todos os resultados de uma política educacional.
Na minha visão, a avaliação também precisa observar a aprendizagem, a frequência, a participação dos estudantes, a qualidade das atividades complementares e as condições de trabalho dos profissionais.
Outro aspecto importante é ouvir professores, estudantes e famílias. As experiências dessas pessoas podem contribuir para identificar dificuldades que nem sempre aparecem nos registros administrativos.
Não acredito que exista um modelo único capaz de atender igualmente todas as comunidades. Municípios e estados apresentam características diferentes, e o planejamento precisa reconhecer essas particularidades.
O compromisso com a educação integral deve envolver objetivos claros, acompanhamento constante e disposição para aperfeiçoar as ações conforme os resultados observados.
Educar de maneira integral é ampliar possibilidades para o futuro
Acredito que a educação integral representa uma oportunidade de discutir qual formação desejamos oferecer às novas gerações. Mais do que ampliar a jornada escolar, essa proposta convida a compreender a aprendizagem como um processo que envolve conhecimento, cultura, movimento, convivência e participação social.
Os conteúdos acadêmicos continuam sendo fundamentais para o desenvolvimento intelectual. Entretanto, considero que experiências culturais, esportivas e comunitárias podem complementar esse processo, oferecendo oportunidades importantes para a formação dos estudantes.
Uma escola comprometida com o desenvolvimento integral precisa reconhecer diferentes interesses e capacidades, permitindo que crianças e adolescentes participem de atividades diversificadas e construam conhecimentos relacionados à realidade em que vivem.
Também entendo que a ampliação dessas experiências exige responsabilidade. Sem infraestrutura adequada, profissionais preparados e planejamento pedagógico, uma jornada escolar maior pode não produzir os benefícios esperados.
Por isso, considero fundamental que as políticas públicas valorizem tanto a expansão do atendimento quanto a qualidade das atividades oferecidas.
Como professor de Educação Física, compreendo que o movimento, o esporte e as práticas corporais possuem um papel relevante na formação humana, assim como a leitura, a ciência, as artes e os demais conhecimentos escolares.
Essas diferentes dimensões não precisam competir por importância. Quando desenvolvidas de maneira integrada, podem contribuir para uma formação mais ampla e significativa.
A educação integral precisa ser compreendida como um compromisso com o desenvolvimento completo dos estudantes, e não simplesmente como uma ampliação do tempo de permanência na escola.
Na minha visão, conciliar aprendizagem, cultura, esporte e desenvolvimento social exige reconhecer que cada experiência educativa possui um papel na construção do conhecimento e das relações humanas.
O futuro da educação brasileira depende da capacidade de transformar propostas em oportunidades concretas, respeitando as necessidades dos estudantes e garantindo condições adequadas para o trabalho dos profissionais.
É nesse equilíbrio entre formação acadêmica, experiências culturais, atividades esportivas e responsabilidade social que vejo uma possibilidade importante de fortalecer a escola pública e ampliar os caminhos disponíveis para crianças e adolescentes.
Artigo de opinião — Douglas Silvano — CREF nº 040024-G/SC
Douglas Silvano é professor de Educação Física em Sombrio, Santa Catarina, e atua em iniciativas relacionadas a políticas públicas, à educação e ao desenvolvimento do esporte.
Créditos da imagem: https://www.pexels.com/pt-br/foto/menino-lendo-em-sala-de-aula-32218635/